segunda-feira, 15 de maio de 2017

Eu amo a minha lata velha!


Eu amo meu carro. Mesmo ele estando mais judiado que ovo de ciclista. Ele está tão velho que esses dias passei no pedágio e a moça me disse: "Bom dia, R$7,90 senhor". Eu disse: “Vendido, pode levar”. Chamo meu carro de possante, afinal, onde eu estaciono fica uma poça de óleo embaixo.

Sei que quem me conhece vai falar que quando falo desse amor estou mais louco que galinha amarrada pelo rabo, já que ele está mais riscado que do que participante do “Baleia azul”, mais sujo que telefone de açougueiro e mais amassado que dinheiro de bêbado. Quem olha ele por dentro duvida ainda mais, já que nem som meu carro tem. 

O meu carro está tão feio, que esses dias coloquei uma placa de venda nele e quando voltei, estava escrito embaixo na poeira "duvido". Ele parece carro de funerária: só anda em ponto morto. Esses dias levei ele na oficina e o mecânico perguntou por que o ronco dele estava estranho. Eu vou lá saber, o carro dorme sozinho na garagem.

Ando com o carro assim porque eu sou um cara sensato. Nos dias de hoje não há nada mais sensato do que ter um carro velho, feio, riscado e amassado, desde que ele ande, é claro.

Tenho um amigo que fica me zoando porque ele tem um carrão e eu ando nessa lata de sardinha com quatro rodas. Mas veja bem, meu carro está quitado, não pago prestação, seguro, acessórios, estacionamento e muito menos flanelinhas, só gasto com o combustível. O meu carro nunca me deixou na mão. E nem a pé.

Esse amigo diz que o carro dele atinge 200 km por hora e que o meu não. Ok, mas do que adianta se aqui na minha cidade se eu passar de 50 km por hora eu sou multado?

A gente sai no carro dele e ele fica saindo toda hora na rua para ver se o carro não foi roubado. Eu deixo o meu em qualquer quebrada do mundo na maior certeza de que ninguém vai mexer nele. Ninguém quer aquela joça nem de graça. Meu amigo sempre dá aquela olhada para trás depois de trancar o carro estacionado, como se fosse a última vez que fosse o ver.

Ele gasta uma nota com estacionamento e quando não há nenhum por perto tem que pagar para o flanelinha olhar. Agora cá para nós, você acha que o flanelinha vai impedir um ladrão de roubar o carrão do meu amigo para ganhar no máximo a gorjeta de cinco reais? Eu não me preocupo, quando o flanelinha diz que se eu não der o dinheiro do café (leia-se cachaça), ele vai riscar meu carro, eu já digo pra ele procurar um espaço onde não esteja riscado. Se ele achar, pode riscar. Quem tem carro velho não precisa ceder à chantagem de ninguém, sabe o que isso se chama? Honra!

Esse meu amigo já foi vítima de dois sequestros relâmpagos. E eu? Quem tem um carro como o meu já deixa claro ao ladrão que nem conta no banco tem e se tiver está no vermelho.

Outra coisa que meu amigo se gaba para o meu lado é que ele pega um monte de mulher por causa do carrão dele. Até nisso o meu carro velho me ajuda: a me livrar das Maria-Gasolina. Vira e mexe vejo as meninas postando: "faça acontecer que eu faço valer a pena". Interpreto: "vem me buscar de carro que eu libero". Como diz o ditado: cavalo pangaré puxando carroça bonita, consegue pastar com qualquer potranca.

Enfim, para todo lugar que meu amigo vai no carrão dele, eu vou na minha carroça feia de pangaré coxo. Sempre quando entramos nessa discussão ele me chama de invejoso e acredito que muitos que leram também vão me chamar. Mas uma coisa é certa, vivo para os bens materiais me servirem e não para ser escravo de bem material. 

Um comentário:

Manuela disse...

Adoro o modo como vc se expressa. Felicidades. Apenas isso.