Mona Lisa sob uma nova percepção

Existem coisas tão óbvias que acabam passando despercebidas. E isso pode acontecer até com a Mona Lisa, o retrato pintado Leonardo Da Vinci, em 1503, estrelado por Lisa del Giocondo, uma mulher de 24 anos, mãe de cinco filhos e esposa de um rico comerciante de seda florentino, uma das obras de arte mais famosas do mundo.

No entanto, quantos de nós já notamos conscientemente o objeto na pintura que aparece mais perto do observador do que qualquer outro: a cadeira em que a mulher misteriosa está sentada? Ainda que seja a única coisa que a modelo de Leonardo agarra com a mão (literalmente todos os dedos de sua mão a tocam ou apontam para ela), a cadeira parece ser o aspecto mais esquecido da pintura.

Virando ligeiramente o olhar para a esquerda, é possível ver que Mona Lisa não está sentada em um banquinho qualquer, mas no que é popularmente conhecido como cadeira pozzetto. Significando "pequeno poço", o pozzetto introduz um simbolismo sutil na narrativa que é tão revelador quanto inesperado.

De repente, as águas que vemos serpenteando em um movimento labiríntico atrás da Mona Lisa (sejam elas de uma paisagem real, como o vale do rio italiano Arno, como alguns historiadores acreditam, ou inteiramente imaginárias, como outros argumentam) não são mais estão distantes e desconectados da modelo, mas um recurso essencial que sustenta sua existência. Eles literalmente fluem para ela.

Ao colocar a Mona Lisa dentro de um "pequeno poço", Da Vinci a transforma em uma dimensão sempre flutuante do universo físico que ela ocupa. Martin Kemp, historiador da arte e importante especialista em Da Vinci, também detectou uma conexão fundamental entre a representação da Mona Lisa e a geologia do mundo em que ela habita. A Mona Lisa não está sentada diante de uma paisagem. Ela é a paisagem.

As representações de mulheres "junto ao poço" são um marco na história da arte ocidental. As histórias do Antigo Testamento de Eliezer encontrando Rebecca em um poço e Jacob com Rachel no poço se tornaram especialmente populares nos séculos 17, 18 e 19. Além disso, as representações apócrifas da Anunciação no Novo Testamento (o momento em que o arcanjo Gabriel informa à Virgem Maria que ela dará à luz a Cristo) ao lado de uma fonte eram comuns entre os ilustradores de manuscritos medievais e podem até ter inspirado o retrato mais antigo de Maria.

No poço também acontece um episódio bíblico em que Jesus se encontra uma mulher, tendo uma conversa enigmática com a samaritana. No Evangelho de São João, Jesus faz uma distinção entre a água que pode ser tirada da nascente natural e a "água viva" que ele pode fornecer. Enquanto a água de um poço só pode sustentar um corpo perecível, a "água viva" é capaz de saciar o espírito eterno.

As representações notáveis ​​da cena pelo pintor italiano medieval Duccio di Buoninsegna e pelo mestre renascentista alemão Lucas Cranach, o Velho, tendem a colocar Jesus diretamente na parede do poço, sugerindo seu domínio sobre os elementos fugazes deste mundo. No entanto, ao colocar seu modelo metaforicamente no poço, Da Vinci confunde a tradição e sugere, em vez disso, uma fusão dos reinos material e espiritual, um borrão do aqui e do além, em um plano compartilhado de criação eterna.

Segundo estudiosos, na emocionante narrativa de Da Vinci, a própria Mona Lisa é uma onda milagrosa de "água viva".

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